A crise climática não se manifesta apenas como uma ameaça ambiental, mas também como um catalisador das desigualdades sociais historicamente enraizadas. No Brasil, seus reflexos na educação revelam um apartheid territorial e racial: estudantes negros e periféricos são os mais afetados por eventos extremos, como enchentes, secas e ondas de calor. Em 2024, 1,17 milhão de alunos tiveram seus estudos interrompidos devido a desastres climáticos, segundo o UNICEF, sendo as escolas de periferias urbanas e zonas rurais — majoritariamente frequentadas por crianças negras e indígenas — as mais vulneráveis.
Essa realidade não é acidental. Dados do SAEB (2021) revelam que alunos negros já apresentam desempenho inferior em matemática e português em comparação aos brancos, desigualdade ampliada pela segregação espacial e pela infraestrutura escolar precária. O Instituto Alana (2023) aponta que 64% das escolas em áreas urbanas com temperaturas extremas estão em bairros periféricos, onde a cobertura vegetal é 52,4% menor do que em regiões ricas, agravando a exposição ao calor.
Ondas de calor, por exemplo, reduzem em até 10% a capacidade cognitiva, conforme estudos da Universidade de Harvard (2022). Enquanto escolas privadas, com três vezes mais áreas verdes e climatização, protegem alunos majoritariamente brancos, as salas superaquecidas das escolas públicas tornam-se ambientes hostis ao aprendizado de crianças negras. Essa disparidade térmica é apenas uma face do problema. No Rio Grande do Sul, as enchentes de 2024 interromperam aulas para 741 mil estudantes, sobretudo em comunidades periféricas, onde a evasão escolar já é 44% maior entre negros (IBGE, 2023) e pode se agravar devido às migrações climáticas. A cada desastre, famílias vulneráveis priorizam a subsistência, e crianças são pressionadas a abandonar a escola para trabalhar ou migrar. Na Amazônia, a seca fechou 1.700 escolas em 2024, afetando 436 mil estudantes, incluindo comunidades indígenas e quilombolas. Sem água, as escolas se tornam inviáveis, e crianças são obrigadas a percorrer longas distâncias para auxiliar suas famílias, rompendo vínculos com a educação formal.
A emergência climática impõe à educação um duplo desafio: além da necessária incorporação do tema nas matrizes curriculares, é urgente repensar a infraestrutura escolar e o papel social das escolas diante da crescente frequência de eventos extremos. Enquanto o debate público se concentra no ensino sobre mudanças climáticas, pouco se discute sobre como as instituições de ensino — muitas já situadas em áreas de risco — devem se adaptar fisicamente e reorganizar seu funcionamento para mitigar impactos que agravam desigualdades socioespaciais.
Em 2025, ano em que o Brasil sediará a COP30, o tema da adaptação climática ganhará centralidade na agenda global. Não por acaso: o país registra anualmente milhares de escolas afetadas por enchentes, calor extremo, deslizamentos e secas prolongadas, fenômenos que interrompem atividades pedagógicas e aprofundam vulnerabilidades. Nesse contexto, a reforma da política educacional precisa dialogar organicamente com as estratégias de adaptação, transformando as escolas em polos de resiliência comunitária.
Um exemplo paradigmático dessa sinergia é o programa Periferia Viva, do Ministério das Cidades, que recebeu um aporte de R$ 5,2 bilhões via Novo PAC para a urbanização de áreas precárias. A iniciativa abre uma oportunidade ímpar para reinserir as escolas no planejamento territorial: em vez de meros equipamentos isolados, poderiam tornar-se núcleos de intervenção integrada. O que isso significaria na prática?
Infraestrutura adaptativa: Construção de escolas com sistemas de captação de água pluvial, energia solar, telhados verdes e climatização para conforto térmico.
Corredores verdes e parques: Criação de corredores verdes e parques nos entornos das escolas.
Conexão com políticas públicas: Integração de hortas escolares a programas de segurança alimentar em períodos de seca, ou uso de pátios como espaços de coleta seletiva vinculados à gestão municipal de resíduos.
Anexo de abrigo: Construção de anexos que possam receber doações e desabrigados nos momentos de enchentes e deslizamentos, evitando que as atividades escolares sejam paralisadas no pós-evento extremo.
Centro de formação à distância: Garantia de infraestrutura para que professores e alunos possam se conectar remotamente e acessar materiais off-line quando houver impossibilidade de deslocamento.
Formação cidadã: Integração das emergências climáticas nos currículos escolares, capacitando os estudantes para enfrentá-las.
Além disso, o programa Periferia Viva adota como metodologia a escolha de um Posto Territorial, que pode ser uma escola, permitindo que a unidade escolar recupere seu papel como instrumento de transformação territorial. Essa abordagem transcende a noção de “escola verde” como uma mera ilha de sustentabilidade, reposicionando-a como um ator estratégico na transição climática justa — um espaço que, ao mesmo tempo que educa, oferece respostas concretas aos desafios impostos pelo colapso ambiental.
Para isso, é fundamental inserir as escolas públicas no Plano Nacional de Adaptação Climática, garantindo que os investimentos priorizem suas estruturas. Escolas periféricas precisam deixar de ser espaços de vulnerabilidade para se tornarem centros de resistência. Isso exige não apenas reformas, mas uma reestruturação que vincule justiça climática, antirracismo e justiça social.