Equidade racial, ESG e os limites da institucionalização no Brasil

O artigo de Guibson Trindade, publicado em dezembro na Folha de S.Paulo, oferece uma leitura precisa sobre o momento atual da agenda de equidade racial no Brasil. Sua análise parte de três vetores que se cruzam de forma simultânea: a pressão política internacional, a reorganização das prioridades institucionais e a intensificação da disputa por narrativas no campo ESG. Esses vetores ajudam a explicar por que a agenda deixou de ser apenas uma pauta de posicionamento e passou a demandar decisões institucionais mais qualificadas.

Essa combinação produziu um cenário ambíguo. De um lado, há um risco real de retração e descontinuidade de políticas racialmente estruturadas. De outro, surgem oportunidades concretas de fortalecimento, especialmente no setor privado, para organizações dispostas a operar essa agenda de forma consistente, com método e governança. A diferença entre esses dois caminhos não está no discurso, mas na capacidade institucional de sustentação.

Para quem atua diretamente nesse campo, essa leitura faz muito sentido.

Nos últimos anos, sobretudo após 2020, muitas organizações passaram a investir em diversidade, equidade e inclusão, cumprindo um papel relevante de mobilização inicial. Houve visibilidade, compromissos públicos, criação de estruturas e adesão institucional. Mas, passada a euforia, veio a pergunta incômoda: o que fazemos com isso no longo prazo?

Na ausência de respostas estruturantes, esse vazio foi sendo preenchido por uma retração gradual, intensificada pela pressão do cenário político internacional e pela reconfiguração do debate ESG. Essa retração não foi apenas orçamentária ou discursiva. Ela também foi simbólica. Tornou-se novamente aceitável realizar eventos, painéis, estudos e espaços de decisão compostos exclusivamente por pessoas brancas. A retirada de aliados deixou de ser exceção e passou a integrar o ambiente institucional. Esse movimento revela não apenas um recuo político, mas fragilidades nos arranjos de governança dessas agendas.

Ao mesmo tempo, esse não é o único movimento em curso.

Apesar do contexto adverso, dados recentes indicam avanços relevantes. Um levantamento com 21 empresas analisadas entre 2022 e 2025 aponta crescimento significativo na adoção de ações afirmativas e de iniciativas estruturadas voltadas à equidade racial. Em parte do setor privado, há menos simbolismo e mais desenho institucional. Esses avanços tendem a aparecer onde a agenda foi integrada à estratégia e aos processos decisórios.

Essa tendência dialoga diretamente com nossa experiência recente. Desde o início das atividades da Dendezê, no segundo semestre de 2023, observamos um aumento consistente na procura por consultoria em diversidade e, especialmente, por ações afirmativas com desenho estratégico. Em 2025, mais que dobramos o número de projetos em relação a 2024. Isso não indica ausência de tensão, mas revela que há organizações dispostas a enfrentar o tema com mais método, previsibilidade e responsabilidade institucional.

É nesse ponto que o artigo acerta ao deslocar o debate para o G de governança do ESG. Do ponto de vista técnico e institucional, Guibson argumenta que talvez estejamos mais próximos de consolidar a equidade racial como eixo permanente da governança corporativa. Esse avanço depende da forma como as diretrizes são incorporadas aos processos decisórios e mantidas ao longo do tempo.

O autor propõe quatro movimentos centrais para 2026: repriorização estratégica nos conselhos, consolidação de métricas e indicadores, proteção das iniciativas já construídas e ampliação de alianças e corresponsabilidade. Trata-se de um conjunto de decisões que exige estrutura institucional e capacidade de acompanhamento contínuo.

Os dados reforçam a urgência desse caminho. Um levantamento da Folha, em parceria com a FGV, analisando informações públicas de 403 companhias de médio e grande porte listadas na CVM, mostra que 75% não possuem pessoas pretas, pardas ou indígenas na diretoria. Nos conselhos de administração, esse número chega a 84%. Nos conselhos fiscais, a 80%. A equidade racial ainda não alcançou o centro do poder decisório, onde as decisões estratégicas de longo prazo são efetivamente tomadas.

Talvez o desafio de 2026 seja exatamente esse: sair do ciclo da reação, da disputa narrativa e do improviso, e avançar de forma consistente no campo da governança, da institucionalização e da responsabilidade compartilhada.

Que seja um ano de trabalho mais consistente, com menos ruído e maior compromisso coletivo para enfrentar essas barreiras e seguir avançando.

Por: Lucas Cardoso, Sócio Cofundador e Diretor Presidente da Dendezê.

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